18 novembro, 2008

Bicho de Sete Cabeças





“ O buraco do espelho está fechado. Agora eu tenho que ficar aqui. Com um olho aberto, outro acordado. No lado de lá onde eu caí. Pro lado de cá não tem acesso mesmo que me chamem pelo nome. Mesmo que admitam meu regresso. Toda vez que eu vô a porta some. A janela some na parede. A palavra de água se dissolve. Na palavra sede a boca cede. Antes de falarem não se ouvem. Já tentei dormir a noite inteira. Quatro, cinco da madrugada. Vou ficar ali nessa cadeira. Com uma orelha aberta outra ligada. O buraco do espelho esta fechado. Agora tenho que ficar agora. Fica no abandono . Aqui dentro do lado de fora.”

Um filme, sem dúvida para ser visto. Um filme que nos convida a refletir sobre a institucionalização da loucura. Fala da produção de confinamentos existenciais. A princípio, este texto que Neto lê na parede poderia ser tomado como um simples discurso psicótico. Mas, revela sobre o processo de adoecimento, a sua transformação e classificação desses sujeitos em homo demens. E, dá visibilidade a tentativa desses homens em forjar espaços para a preservação de certa capacidade crítica que resiste e rechaça a captura total do ser em si. Problematiza questões como as de “morrer de vida, viver de morte” (Heráclito).


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